
Aos reis e aos plebeus
Eram 16:50 e a lua ia alta no céu do quase inverno londrino. Cheia e brilhante, clareava a mal iluminada Tothill St. Talvez a deficiência de luz fosse intencional, para tornar ainda mais impactante a primeira visão da Abadia de Westminster iluminada. Caso tenha sido essa a ideia, parabéns aos envolvidos, a vista é mesmo linda.
Ao contrário da beleza clara da Abadia, o prédio em frente a ela – à esquerda da Tothill – dá indícios de que os responsáveis por sua aparência noturna foram em outra direção. O ângulo estranho e o tom de vermelho deram um ar um pouco macabro ao prédio. Londres tem um conhecido espírito rebelde atraído pelo macabro, sinistro e subversivo, mas por ser um prédio da Igreja Metodista, estranha pensar que tenha havido o desejo de alinhar-se a tal espírito. Por qualquer que seja a razão, o prédio em frente à famosa igreja destoava tacanhamente da paisagem etérea.
À porta de minha amada igreja já havia uma pequena fila. A entrada ainda não fora permitida e meu coração acelerou quando percebi que poderíamos nos sentar no interior da nave principal. A Abadia de Westminster havia ganhado meu coração 18 meses antes, no mesmo tipo de celebração que estávamos prestes a assistir, mas naquela oportunidade só havíamos conseguido lugar na parte mais externa da igreja. Dessa vez, ao invés de minha mãe e irmãs, a companhia era meu marido, com quem havia feito um “tour do milagre” ao longo do dia, mostrando todos os lugares que fizeram parte dos 10 dias em que minha mãe esteve internada na cidade, e não havia maneira melhor de encerrar a maratona. Estivemos no hospital, no primeiro hotel, no canal, na estação, no mercado, no Airbnb, todos os lugares que testemunharam essa odisseia de vida. Eu precisava terminar na Abadia.
A porta foi aberta e fomos conduzidos pela lateral até a deslumbrante nave principal, passando por todos aqueles setores que tantas vezes vi na TV, repletos de autoridades do mundo inteiro. Naquelas cadeiras sentaram-se príncipes, princesas, presidentes, primeiros ministros, celebridades…Meus olhos ávidos percorriam todos os cantos, tentando absorver cada detalhe, gravar permanentemente em minha memória aquela beleza e sua atmosfera.
Tal atmosfera era densa e profundamente espiritual, como se o céu estivesse tocando a terra. Não sei se todos podiam sentir, não sei quantos estavam ali pelo culto e quantos estavam aproveitando a oportunidade de entrar no monumento sem pagar. O meu espírito estava totalmente conectado e sensível, e quando o canto começou foi como se passássemos os portais eternos. Sentada bem ao lado daqueles bancos de madeira onde vi até a Rainha Elizabeth se sentar, participava de uma solenidade espiritual como nunca havia presenciado antes.
Aos reis a aos plebeus; a presença de Deus é para todos. Quando durante o funeral da minha amada rainha, vi ali onde me sentava agora autoridades de todo o mundo declararem: “pois Teu é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”, a oração tomou outra dimensão e profundidade. Agora, éramos nós, reles mortais, declarando o mesmo e no mesmo lugar.
Não havia nenhum nobre lá naquela noite, mas os celebrantes eram os mesmos, e meus olhos procuravam pelo Bispo Ralph. Pedi a Deus para que estivesse lá e, se possível, uma oportunidade de falar com ele. Sim, eu conheço um bispo que participou da coroação de Rei Charles e o chamo pelo primeiro nome.
Enquanto a música tocava os celebrantes se aproximaram do altar e, depois de uma profunda reverência, dirigiram-se aos seus lugares. Bem à minha frente, num púlpito, quem dirigia a liturgia era meu querido bispo!
Canções, leituras responsivas, mensagem, orações; mundo, realeza, guerras, paz, segunda vinda de Cristo… Durante uma hora estive fora da terra, numa dimensão espiritual desconhecida. Ao término, a procissão de saída e em seguida estávamos liberados para sair. Cheia de expectativa, fui caminhando vagarosamente para a saída, prestando ainda toda atenção a tudo. Lustres, arcos, teto extremamente alto, aquele piso preto e branco, os entalhes na madeira, os títulos da parede, o túmulo do soldado desconhecido que faz as noivas darem uma volta; tudo uma beleza absoluta. E então, olhei para a porta, e o bispo que coroa reis e ora por plebeus estava lá.

Caminhei em sua direção sorrindo e, sem cerimônia, perguntei se ele era o Bispo Ralph. Ele sorriu de volta, confirmou, e então contei que 18 meses antes havia estado ali com minha mãe e irmãs numa viagem de sonhos. Gostaria de dizer que ele parecia se lembrar de nós, mas não acredito muito nisso. Falei de como ele orou por nós, e de como pediu que “quando as nuvens negras viessem nós pudéssemos nos lembrar daquele momento e da oração do Bispo Ralph”; continuei contando que dois dias depois elas de fato chegaram, e aquela oração nos sustentou. Parecendo realmente feliz, o sacerdote dos reis sorriu e disse à plebéia que trazia muita alegria a ele o saber que pôde nos abençoar e trazer força num momento tão terrível.
Tiramos uma foto juntos e fui embora de mãos dadas com meu amor, não sem antes admirar uma última vez aquele lugar estonteante.
Bispo Ralph seguirá com os nobres e eu com os plebeus, mas jamais esquecerei o sorriso genuíno e a satisfação no rosto daquele que caminha entre os grandes e ministra aos pequenos. O sorriso dele fechou um dia e um ciclo na minha vida.